quinta-feira, 27 de outubro de 2016

OUTUBRO ROSA

OUTUBRO ROSA 

Olá!!! 
Me chamo Gisele, mas algumas pessoas me chamam de Lili, logo, você poderá chamar também!

Bem, estamos no tal Outubro Rosa, e eu resolvi compartilhar com vocês a história do meu outubro de 1998, que não foi tão rosa assim, aliás, não existia essa campanha, e tão pouco se falava sobre 
câncer de mama.
Ultimamente somos bombardeados por essas campanhas, que são ótimas para a promoção em saúde e enfatizar a importância da prevenção das enfermidades. Só não concordo com o uso desenfreado disso para fins lucrativos e comerciais, e pouco se "lixando" para a prevenção em si.

Não concordo muito com essa coisa de "rosa", porque ainda vivemos sob o paradigma de que Rosa é 'cor de menina, mulher', e que azul é 'cor menino e homem'. Vivemos sim!!!

E quando atribuímos rosa a uma campanha voltada para uma doença majoritariamente feminina, deixamos toda a responsabilidade sobre as costas da mulher, (já não basta a dupla jornada, cuidar da casa, da família, dos filhos e ainda mais isso) antes, no durante e no depois do câncer de mama.

Se você discorda e acha que é 'mimimi", já sei que você não tem câncer, não tem nenhum caso na família, e pelo jeito, nem sabe do que se trata, e pensa que câncer de mama é algo que só acontece com a outra mulher, com outra família, e acha que algo fácil de lidar, ou romântico como numa novela. 
Mas não é!!! Já vou dizer porquê.

Em agosto de 1998, lembro como se fosse ontem, minha mãe estava numa correria dentro de casa. Tinha conseguido um encaixe com a ginecologista no posto de saúde próximo de casa. Ela já tinha faltado em várias consultas, por conta de seu trabalho e milhares de tarefas domésticas, onde não sobrava tempo para pensar em si mesma. 
Ao acordar, minha mãe sentiu um desconforto no tórax, e levou a mão ao local. Assim que encostou sua mão do lado esquerdo do peito, sentiu um 'caroço" na mama esquerda. 
Ela foi encontrar a médica, que prontamente a atendeu, nós em casa ficamos sem almoço.
Voltando da consulta emergencial, minha mãe estava com a mão cheia de pedidos de exame, incluindo um pedido de mamografia. Algo do qual nunca tínhamos ouvido falar, nem sabíamos da existência e possibilidade do tal exame.

Passados alguns dias, ela fez o exame de mamografia, e depois de poucos outros dias, chegou o resultado. 
Mamãe precisava fazer uma biópsia (???). Tá aí outra coisa da qual nunca ouvimos antes. (Trata-se da remoção de tecido ou outro material de um organismo vivo para fins diagnósticos). 
Passaram mais alguns dias, e o resultado da biópsia chegou. Minhas mãe abriu um envelope grande, leu alguma coisa que a fez chorar, como eu nunca tinha visto alguém chorar antes.
 A rotina da casa, já tinha virado uma bagunça, nós faltávamos nas aulas, aprendemos a cozinhar e fazer os serviços domésticos na marra. Todos na casa, deixavam seus compromissos de lado, para acompanhar nossa mãe que estava enferma. Nosso rendimento escolar caiu, meu pai não tinha mais tempo de trabalhar, ajudar com nada, abandonamos cursos extra curriculares, hobbies, lazeres, planos, sonhos... Até as encomendas de salgados e roupas que mamãe costurava ficaram para depois. Tão depois, que ela nunca mais entregou, nem poderia fazer.

Minha mãe teve o câncer de mama, e quando alguém passa pela mastectomia total, que é a retirada completa da mama através de uma cirurgia, a mulher deve seguir uma série de orientações e tomar alguns cuidados, (tais orientações podem ser encontradas no site de Inca em www.inca.gov.br), logo, a família deve fazer todas as coisas que antes eram atribuídas a mãe, a mulher da casa. Além disso, tem os medicamentos, alguns custam bastante, outros você encontra na rede pública de saúde, mas fato é que a casa terá gastos, e todas as outras coisas ficarão em segundo plano.

Minha mãe precisou fazer radioterapia, quimioterapia, fisioterapia, psicoterapia... vê-la apagar dia após dia, machucava todos os dias, como uma faca no coração. Não poderíamos nos mexer do lugar, nem tocar nossos planos. Seria muito cruel com ela, seguir com nossas vidas e deixá-la ali, sozinha.

Quando uma amiga, uma parente, uma pessoa conhecida, é acometida com essa doença, todos os envolvidos, conhecidos, pessoas próximas, são atingidas direta, ou indiretamente, seja você responsável pelo orçamento da família, seja você a vizinha da família cuja mãe está enferma, pois cedo ou tarde, um dia eles vão pedir para você dar uma olhada na casa enquanto estão fora, ou cuidará de um filho deles, um dois ou dez dias, ou pelo resto da vida, até que esse filho faça 18 anos. (Isso aconteceu com a gente).

Quando uma mulher retira sua mama, na maioria dos casos ela passa a sentir vergonha do próprio corpo, se sentir 'menos mulher', inútil, um estorvo, e com medo de ficar sem o companheiro (a). E por incrível que pareça, muitas pessoas se afastam e rejeitam a mulher, como se a enfermidade fosse transmissível. (Não é transmissível gente!!!)

Passados quatro longos árduos anos, em outubro de 2002 minha mãe perdeu a luta contra o câncer de mama.
Nós filhos, marido, amigos, parentes perdemos também, pois investimos tudo o que tínhamos para vê-la vencer essa luta. Foi o dinheiro que não tínhamos, foi a força que nem se sabe de onde saiu, foi o tempo que era pouco, foram as noites acordadas com minha mãe...

Então, porque você ainda acha que a doença é só coisa da mulher? Vamos lá! Divida a responsabilidade da prevenção com ela. Você companheiro(a), filho(a), irmão, vizinha... lembre essa mulher que está aí do seu lado, de fazer o auto-exame, acompanhe nos exames, marque uma consulta para ela com o ginecologista ou mastologista... Se você está vendo que ela não tem tempo, ajude-a com mais essa responsabilidade!

Lembre-se sempre de quantas vezes essa mulher largou tudo por você! 
Foto: Raquel Schiavetti (minha mãe)


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#saúdedamulher
#engolindosapo


2 comentários:

  1. Parabéns Gi pela postagem! Que texto!!! Sem palavras... ela era linda...

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  2. Parabéns Gi pela postagem! Que texto!!! Sem palavras... ela era linda...

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